A Guerra dos Tronos

A interpretação de datas históricas varia de acordo com a perspectiva política dos acontecimentos

No final do mês passado celebraram-se em Portugal 200 anos de liberalismo, que esqueceram a memória duma guerra fratricida que viria ter como principal consequência a independência do Brasil

O ato que provocou a perda da jóia mais preciosa do reino e que foi qualificado pelas Cortes em Lisboa a 7 de Setembro de 1822 “como um crime de lesa-pátria “, foi cometido por um dos seus filhos mais queridos e celebrados: Pedro IV.

A crónica de Portugal dessa conturbada época de fim império e de guerra entre os irmãos Dom Pedro, o Rei Soldado e de seu irmão Dom Miguel, o Rei Absoluto, não fica nada dever a séries de televisão dos nossos dias como uma “Guerra dos tronos”.

Depois de assumir o título de Imperador, D Pedro I do Brasil, Dom Pedro IV abdicaria a favor de seu filho, para contestar o trono de Portugal ao seu irmão Dom Miguel I, para defender a coroa de sua filha Dona Maria II.

Dom Miguel e Dom Pedro e uma caricatura da época


A história regista sob uma visão liberal a figura de Dom Pedro IV como um defensor das ideais revolucionários e emancipalistas em contraste com o seu irmão Dom Miguel, apologista da monarquia absolutista.

Com a retirada de Dom João VI e da família real para o Brasil e da derrota dos exércitos napoleónicos, Portugal tinha ficado sob a ocupação da Inglaterra, com o comando do marechal Beresford.

Foi nesse contexto que estalou no Porto a Revolução Liberal de 1820 que daria lugar a instauração da Monarquia Constitucional.

Não teria sido possível a Dom Pedro mobilizar e transportar tropas para invadir Portugal sem a assistência da armada britânica, nem no prosseguimento de 14 anos de guerra civil sem o apoio diplomático e militar da Inglaterra.

Uma reflexão mais profunda sobre política internacional da época revela que Portugal foi durante esse período, como em muitas outras ocasiões da nossa história, um país dominado e a casa real portuguesa manipulados pelos interesses da Inglaterra, uma das potências instigadoras da independência do Brasil, onde adviriam elevados proveitos mercantis.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *