Birkenhead

Contraste entre Nobreza e indignidade

Na madrugada de 26 de fevereiro de 1852 o navio da marinha britânica HMS Birkenhead, quando navegava entre a Cidade do Cabo e Algoa Bay ,na costa leste sul-africana, embateu num baixio afundando-se em poucos minutos.

Os traiçoeiros recifes da costa do Cabo da Boa Esperança causaram, desde que há registos sobre catástrofes náuticas, mais de três mil naufrágios na região, mas o que sobressai no trágico incidente foi ter sido cenário de um dos mais sublimes exemplos de altruísmo e nobreza de carácter manifestados em momentos de desgraça.

O barco transportava mais de seiscentos passageiros, na sua maioria militares, para os quais não havia embarcações, por insuficiência de escaleres, para salvar todos os náufragos.

Num gesto de invulgar cavalheirismo os oficiais ordenaram aos subordinados que se perfilassem em formatura, enquanto proferiam as palavras de ordem que celebrizariam o incidente “Mulheres e crianças primeiro!”.

Perfilados e imóveis os militares respeitaram com disciplina as ordens dos oficiais, demonstrando com o seu espírito de sacrifício os mais nobres atributos da natureza humana.

Salvaram-se as mulheres e crianças nos botes que havia disponíveis, mas de mais de quinhentos soldados e marinheiros menos de cem chegaram à terra firme.

O resto do contingente de tropas ou morreram afogados, ou foram devorados pelos tubarões.

O episódio do naufrágio do Birkenhead ficou marcado na história como um mais dignificantes momentos de altruísmo e solidariedade humana.

Não são exclusivos nem da marinha britânica, nem de qualquer outra nação do mundo a nobreza de carácter e generosidade para salvar o seu semelhante, em troca da sua própria vida.

Em contradição, o atropelo e o desrespeito pelos mais fracos e pelas vidas do próximo, na fúria de sobreviver a qualquer custo, traz também à tona de água atos da maior torpeza.

 Nestes tempos de pandemia, um exemplo chocante de insensibilidade e desprezo pela vida dos outros, tem-se manifestado, ao nível de nações e dos cidadãos, no atropelo dos direitos dos mais fracos e vulneráveis, na desenfreada corrida para conseguirem vacinar-se contra o Covid , antes dos idosos e doentes fragilizados.

Os casos desta natureza tem ocorrido por todo o mundo e Portuga, não tem sido excepção.

Doses de vacina têm sido desviadas para serem administradas a familiares e amigos.

Os casos, que estão ser frequentemente denunciados pelos jornalistas, são o espelho duma sociedade em que o egoísmo impera e que dá guarida  a autoridades cívicas da mais baixa estirpe, que inclui responsáveis por misericórdias, edilidades e organismos de benemerência, que não têm pudor de se vacinar primeiro, lesando quem mais das vacinas tem direito.

Um dos mais caricatos incidentes de desvio de vacinas em Portugal foi o dum pasteleiro, provavelmente beneficiado por serviços gastronômicos a membros da municipalidade.

O exemplo da depravação de costumes vem dos próprios políticos à frente dos órgãos de soberania, que legislaram para ocupar a primeira linha para se vacinarem, e cujo lema, ao contrário dos oficiais do naufrágio do Birkenhead, preferem gritar: “salve-se quem puder!”.  

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